A Estrutura da Indignação Seletiva
Nos últimos dias de dezembro, as redes sociais brasileiras concentraram-se em uma campanha publicitária estrelada pela atriz Fernanda Torres, que utilizou a frase “Não quero que você comece 2026 com o pé direito”. A interpretação literal da expressão gerou reações intensas de setores conservadores, que organizaram ações de boicote e protestos simbólicos, incluindo a destruição pública de sandálias da marca.
Esse fenômeno de mobilização massiva contrasta dramaticamente com a recepção do caso de Tainara Souza, morta após ser atropelada e arrastada por dezenas de metros pelo ex-companheiro na Marginal Tietê, em São Paulo. O crime, ocorrido semanas antes de sua morte confirmada na véspera do Natal, representa mais um episódio da violência estrutural de gênero que vitimiza mulheres brasileiras diariamente.
Números que Revelam uma Hierarquia de Indignação
A diferença no volume de engajamento é sintomática. Enquanto vídeos de personalidades políticas destruindo produtos comerciais acumularam milhões de visualizações e geraram intenso debate ideológico, o caso de Tainara permaneceu restrito a círculos especializados e movimentos feministas. Essa disparidade evidencia uma hierarquia implícita nos temas que mobilizam a atenção pública.
Analistas das redes sociais apontam que a polarização política tornou-se mais eficaz em capturar a atenção coletiva do que questões de violência estrutural. O consultor político Wilson Pedroso sintetizou essa contradição ao questionar quantas pessoas se indignaram com o feminicídio em comparação com aquelas que destruíram sandálias por discordância política.
A Dimensão Estrutural da Violência de Gênero
O feminicídio de Tainara Souza não é um caso isolado, mas parte de um padrão sistêmico de violência contra mulheres no Brasil. Segundo dados oficiais, o país registra uma mulher assassinada a cada sete horas por razões de gênero. Essa realidade estrutural, no entanto, raramente alcança o mesmo nível de mobilização que polêmicas políticas ou comerciais.
A invisibilização desses crimes reflete mecanismos sociais mais amplos de naturalização da violência de gênero. Enquanto debates sobre simbolismos políticos em campanhas publicitárias ocupam o centro da esfera pública, a violência cotidiana contra mulheres permanece como ruído de fundo, reconhecida em números estatísticos mas insuficientemente problematizada enquanto urgência nacional.
Reações nas Redes Sociais
Nas plataformas digitais, usuários começaram a questionar essa assimetria. Publicações comparando o volume de atenção dedicado aos dois temas geraram debates sobre as prioridades da sociedade brasileira. Uma usuária resumiu a frustração coletiva ao afirmar que Tainara Souza se tornou apenas mais uma estatística, enquanto uma propaganda comercial recebia atenção desproporcional.
Essas manifestações apontam para uma consciência crescente sobre os mecanismos de visibilidade nas redes sociais e sobre como a polarização política pode ofuscar questões de justiça social fundamentais. A discussão transcende o caso específico e questiona quais narrativas são amplificadas no espaço público digital.
Implicações para o Debate Público
A comparação entre os dois episódios não busca hierarquizar tragédias, mas evidenciar como a estrutura do debate público contemporâneo pode distorcer prioridades sociais. Quando uma campanha publicitária gera mais mobilização que um crime brutal, torna-se necessário examinar os mecanismos que produzem essa inversão.
Especialistas em comunicação argumentam que a economia da atenção nas redes sociais privilegia conteúdos polarizadores em detrimento de questões estruturais complexas. Enquanto a indignação com simbolismos políticos pode ser rapidamente convertida em engajamento digital, a compreensão da violência de gênero como fenômeno sistêmico exige reflexão mais profunda e menos imediatamente recompensada pelos algoritmos das plataformas.
Perspectivas Futuras
O contraste entre as reações aos dois eventos levanta questões sobre o futuro do debate público brasileiro. A capacidade de mobilização em torno de símbolos políticos, quando não acompanhada de igual atenção a questões estruturais de violência e desigualdade, indica um desafio para a construção de uma esfera pública verdadeiramente democrática e orientada por prioridades coletivas.
A memória de Tainara Souza e de tantas outras vítimas da violência de gênero exige mais que estatísticas ocasionais. Exige uma reorientação fundamental nas prioridades do debate público, capaz de reconhecer a urgência de problemas estruturais mesmo quando eles não se prestam à mesma dramatização que polêmicas comerciais ou políticas.
Fonte: metropoles.com
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