As modalidades de crédito mais utilizadas pelas camadas populares apresentam patamares que beiram a usura institucionalizada. O cartão de crédito rotativo alcançou 440,5% ao ano, e o cheque especial chegou a 141,7% ao ano. Mesmo após a imposição de teto pelo Conselho Monetário Nacional limitando a dívida total a 100% do valor original nas operações rotativas, as taxas permanecem em níveis proibitivos.
A manutenção da Selic em 15% ao ano reflete uma escolha de política econômica que prioriza o controle inflacionário através da supressão da demanda, em detrimento de outras estratégias possíveis. Esta opção tem custos sociais evidentes: o endividamento das famílias atingiu 49,3% da renda, enquanto o comprometimento da renda alcançou 29,4%, ambos em trajetória ascendente.
O spread bancário — diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada do cliente — situou-se em 20,9 pontos percentuais, revelando que o custo do crédito transcende amplamente a taxa básica de juros. Este componente incorpora não apenas o risco e a inadimplência, mas também as margens de lucro do sistema financeiro, cuja regulação permanece insuficiente.
A inadimplência total mantém-se em 3,8%, próxima ao recorde histórico de 4% desde o início da série em março de 2011. No crédito livre para famílias, o índice já atinge 6,3%, sinalizando o limite da capacidade de endividamento em um cenário de juros estruturalmente elevados.
Paradoxalmente, mesmo com o crédito caro, o sistema registrou expansão: o crédito ampliado ao setor não financeiro alcançou R$ 20,3 trilhões, equivalente a 160,9% do PIB, com crescimento de 11,2% em doze meses. O crédito às famílias cresceu 11,4% no período, muito superior aos 4,8% das empresas, indicando que as famílias recorrem ao endividamento oneroso para sustentar o consumo básico.
Esta dinâmica evidencia um modelo econômico no qual a política monetária restritiva não apenas contém a inflação através da supressão da demanda, mas também transfere renda das famílias para o sistema financeiro via juros. O Brasil, segundo dados internacionais, foi o país com maiores gastos em juros sobre a dívida pública em 2024, atingindo 8,28% do PIB entre 153 países analisados.
A trajetória dos juros bancários em 2025 ilustra como escolhas de política econômica geram impactos distributivos desiguais. Enquanto o discurso oficial enfatiza a necessidade de controle inflacionário, a prática resulta em endividamento crescente das famílias, margens bancárias elevadas e transferência de recursos públicos para o pagamento de juros.
A perspectiva futura dependerá da evolução da inflação e do espaço político para uma eventual flexibilização da política monetária. Contudo, a manutenção prolongada de juros em patamares historicamente elevados levanta questões sobre a sustentabilidade social e econômica deste modelo, particularmente para as famílias de menor renda que dependem do crédito para necessidades básicas.
Fonte: G1.Globo.com



