Museu Paulista recebe maior acervo bibliográfico afro-brasileiro do país após trabalho de décadas do sociólogo Reginaldo Prandi

O Museu Paulista da Universidade de São Paulo incorporou ao seu patrimônio cerca de três mil títulos sobre estudos afro-brasileiros e africanos, fruto do trabalho intelectual de décadas do professor emérito Reginaldo Prandi. A doação representa não apenas a transferência física de livros, mas o reconhecimento institucional de um projeto acadêmico consistente que documentou e preservou conhecimentos historicamente marginalizados sobre as culturas de matriz africana no Brasil.

Meio século de construção intelectual

A “Coleção Afro-Brasileira Reginaldo Prandi”, como passou a ser denominada, é resultado de mais de 50 anos de pesquisa sistemática. Prandi, sociólogo vinculado ao Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, dedicou sua trajetória acadêmica ao estudo das religiões e culturas afro-brasileiras, consolidando expertise reconhecida nacional e internacionalmente.

O acervo revela a amplitude de seu trabalho: além de obras sobre religiosidades africanas e afro-brasileiras, a coleção inclui títulos sobre tradições religiosas afro-americanas, cubanas e haitianas, com destaque para publicações norte-americanas sobre a nova geração de praticantes da religião iorubá e sistemas oraculares. Essa diversidade temática evidencia a visão comparativa e transnacional que caracterizou sua produção intelectual.

Da coleção particular ao patrimônio público

Segundo a professora Solange Ferraz de Lima, do Departamento de História da USP, Prandi construiu metodicamente o que se tornou a maior coleção particular do Brasil sobre o tema. A decisão de doá-la ao Museu Paulista representa um gesto de compromisso com a democratização do conhecimento — transferindo para o domínio público décadas de curadoria intelectual que, de outra forma, poderia ser dispersada ou permanecer inacessível.

O processo de doação demandou mais de um ano de tramitação, respeitando protocolos institucionais que garantem a adequada incorporação de acervos. Desde 1º de dezembro, os volumes ocupam prateleiras exclusivas na biblioteca do Museu Paulista. Embora ainda não estejam disponíveis para consulta pública — a catalogação no sistema Dedalus pode levar tempo considerável, segundo a bibliotecária Hálida Fernandes —, a formalização da doação já assegura a preservação e futura acessibilidade deste patrimônio.

Museu Paulista como repositório da diversidade cultural brasileira

A incorporação do acervo Prandi consolida o Museu Paulista, vinculado ao Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, como instituição de referência não apenas na história paulista e nacional, mas também na preservação da memória afro-brasileira. A biblioteca do museu já possui mais de cem mil títulos, mas a chegada desta coleção específica amplia significativamente sua capacidade de apoiar pesquisas sobre diásporas africanas e religiosidades de matriz africana.

O trabalho de Prandi, ao ser institucionalizado, cria infraestrutura permanente para futuras gerações de pesquisadores. Suas publicações — que incluem obras de referência sobre mitologia dos orixás e estudos sociológicos das religiões afro-brasileiras — já eram amplamente citadas na academia. Agora, o acervo que fundamentou essa produção também estará disponível, criando possibilidades inéditas de pesquisa aprofundada.

Legado intelectual e compromisso institucional

A doação de Reginaldo Prandi ao Museu Paulista estabelece um precedente importante: demonstra que o trabalho acadêmico individual, quando amparado por instituições públicas competentes, pode gerar impacto duradouro na democratização do conhecimento. O professor não apenas produziu pesquisa de excelência sobre culturas afro-brasileiras — ele construiu a infraestrutura bibliográfica que permite a continuidade desses estudos.

Para estudantes, pesquisadores e interessados nas heranças africanas no Brasil, o acervo representa acesso a décadas de curadoria especializada. Para a USP e o Museu Paulista, representa a responsabilidade de processar, catalogar e disponibilizar adequadamente este patrimônio. E para Reginaldo Prandi, representa a materialização de um projeto intelectual que transcende sua trajetória individual, tornando-se bem público permanente.

Fonte: Jornal da USP

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