Cientistas brasileiras da UERJ integram painel climático da ONU e fortalecem representatividade do Sul Global na ciência

A nomeação das professoras Letícia Cotrim e Luciana Prado, ambas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU representa um avanço significativo na participação brasileira nas instâncias científicas globais que definem estratégias de enfrentamento à crise climática. A seleção, anunciada recentemente, posiciona as pesquisadoras entre os especialistas responsáveis pela elaboração do Sétimo Relatório de Avaliação (AR7), documento que fundamentará as políticas climáticas de praticamente todas as nações nas próximas décadas.

Expertise técnica e diversidade de perspectivas

Letícia Cotrim, professora da Faculdade de Oceanografia da UERJ, integrará o grupo de trabalho focado em Oceanos e Áreas Costeiras. Sua trajetória inclui participação em expedições científicas à Antártica e estudos sobre acidificação oceânica, fenômeno crítico para os ecossistemas marinhos e que afeta diretamente a segurança alimentar de populações costeiras. O Brasil possui uma das maiores faixas litorâneas do mundo, com mais de 8.500 quilômetros de costa, tornando a expertise de Cotrim estratégica para avaliar vulnerabilidades regionais à elevação do nível do mar e eventos climáticos extremos.

Luciana Prado, por sua vez, atuará no grupo de Mitigação, trazendo experiência consolidada em energia e planejamento ambiental. Sua contribuição será fundamental para a análise de cenários de descarbonização da economia, tema central nas negociações internacionais sobre transição energética justa. A mitigação envolve tanto a redução de emissões de gases de efeito estufa quanto o desenvolvimento de tecnologias e políticas públicas que viabilizem economias de baixo carbono sem aprofundar desigualdades socioeconômicas.

A dimensão política da representatividade científica

A seleção para o IPCC é amplamente reconhecida como o mais alto reconhecimento da ciência climática internacional. O painel não conduz pesquisas próprias, mas exerce papel crucial na síntese e avaliação crítica da produção científica mundial, traduzindo evidências complexas em recomendações acessíveis aos formuladores de políticas públicas. A presença de cientistas do Hemisfério Sul, particularmente mulheres, no corpo técnico do IPCC tem sido historicamente desproporcional à magnitude dos impactos climáticos que essas regiões enfrentam.

A participação brasileira ganha relevância estratégica considerando que o país abriga a maior floresta tropical do planeta, possui matriz energética relativamente limpa e, simultaneamente, enfrenta desafios estruturais de desmatamento, queimadas e vulnerabilidade climática em áreas urbanas densamente povoadas. A inclusão de perspectivas regionalizadas no AR7 pode influenciar a priorização de mecanismos de financiamento climático e transferência de tecnologia para países em desenvolvimento, temas centrais nas Conferências das Partes (COPs) do clima.

Contexto institucional e projeção acadêmica

Para a UERJ, a nomeação simultânea de duas pesquisadoras representa reconhecimento da qualidade da pesquisa produzida em universidades públicas estaduais brasileiras. Em um cenário de contingenciamento orçamentário e pressões sobre a autonomia universitária, o destaque internacional reforça o argumento da necessidade de investimento sustentado em ciência e tecnologia como política de Estado, não de governo.

A presença de vozes brasileiras no IPCC também assegura que particularidades dos biomas nacionais, como Amazônia, Cerrado, Pantanal e zonas costeiras, sejam adequadamente consideradas nos modelos climáticos globais. Historicamente, modelos científicos desenvolvidos no Norte Global tendem a subdimensionar impactos específicos de regiões tropicais e subtropicais, comprometendo a eficácia de políticas de adaptação e resiliência.

Implicações para a política climática global

O AR7 do IPCC será finalizado nos próximos anos e servirá de referência para as negociações climáticas da década de 2030, período crucial para a implementação das metas do Acordo de Paris. O relatório influenciará decisões sobre financiamento climático, metas de redução de emissões e estratégias de adaptação em escala planetária. A participação brasileira qualificada nesse processo fortalece a posição diplomática do país nas negociações multilaterais, especialmente considerando que o Brasil sediará a COP30 em Belém, em 2025.

A nomeação de Cotrim e Prado representa mais do que reconhecimento individual: simboliza a consolidação de redes científicas brasileiras em espaços globais de poder epistêmico, onde conhecimento técnico e decisão política se entrelaçam para definir os rumos da humanidade diante da maior crise ambiental da história moderna.

Fonte: IstoÉ Sustentável

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