Trump Abandona Bolsonaro: Análise do Pragmatismo Autoritário nas Relações Brasil-EUA

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro marca não apenas o possível fim de uma trajetória política, mas também evidencia a fragilidade das alianças construídas sobre bases puramente ideológicas no cenário internacional. John Feeley, ex-embaixador dos Estados Unidos no Panamá e especialista em América Latina, oferece uma análise contundente sobre o reposicionamento de Donald Trump em relação ao ex-presidente brasileiro.

Segundo Feeley, em entrevista concedida à BBC News Brasil, a alteração na postura de Trump não representa uma vitória diplomática do governo Lula nas negociações com Washington. O fenômeno é mais simples e revelador: Trump abandonou Bolsonaro porque o enxerga como um “perdedor” — categoria que o presidente americano despreza visceralmente.

A Lógica da Força e o Descarte dos Derrotados

A análise de Feeley expõe uma característica fundamental do pensamento trumpista: a adesão irrestrita à narrativa do vencedor, independentemente de compromissos ideológicos ou lealdades políticas anteriores. Quando Bolsonaro foi condenado e preso, perdeu automaticamente seu valor no cálculo político de Trump, que opera sob uma lógica estritamente transacional.

“Assim que Bolsonaro perdeu, ou seja, assim que foi condenado e preso, Donald Trump o viu como um perdedor, e se há algo que Trump não tolera são perdedores”, afirma o ex-embaixador, sintetizando a essência desse pragmatismo autoritário.

A Escalada e o Recuo: Anatomia de uma Pressão Fracassada

O governo Trump implementou, em julho de 2024, tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros e incluiu o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa na lista de sanções da Lei Magnitsky — mecanismo utilizado contra violadores de direitos humanos e praticantes de corrupção. As medidas visavam influenciar o julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Contudo, em 20 de novembro, Trump suspendeu as tarifas, e semanas depois retirou Moraes da lista de sancionados. Para Feeley, essa sequência de ações e retrocessos não indica êxito da diplomacia brasileira, mas sim a imprevisibilidade característica de Trump, descrito pelo diplomata como “extremamente narcisista” e praticamente impossível de negociar com previsibilidade.

A imposição inicial das sanções teria sido resultado direto do lobby de Eduardo Bolsonaro em Washington, filho do ex-presidente que mantém trânsito entre republicanos americanos. Quando essa pressão perdeu efetividade — seja pela prisão de Bolsonaro ou pela percepção de que o investimento político não traria retorno —, Trump simplesmente abandonou a estratégia.

Implicações Estruturais para a Política Externa Brasileira

O episódio evidencia os riscos de uma política externa construída sobre alinhamentos ideológicos automáticos. A tentativa de Bolsonaro de transformar a relação com os Estados Unidos em uma aliança pessoal com Trump revelou-se uma aposta frágil, dependente de circunstâncias políticas voláteis.

Feeley considera o resultado das tratativas entre Brasil e Estados Unidos nos últimos meses como produto da sorte, não de habilidade negociadora excepcional de nenhuma das partes. Essa avaliação sugere que a estabilidade nas relações bilaterais permanece vulnerável aos caprichos pessoais do presidente americano.

A Questão Venezuelana no Contexto das Sanções

O ex-embaixador também comentou o “bloqueio total” imposto por Washington a navios-petroleiros sancionados que operam na Venezuela. Segundo Feeley, essa medida é significativamente mais eficaz contra o governo de Nicolás Maduro do que ações anteriores relacionadas ao narcotráfico.

Reconhecendo que as sanções causarão efeitos secundários sobre a população venezuelana, Feeley argumenta que não devem ser apontadas como causa principal do sofrimento dos venezuelanos — responsabilidade que, em sua visão, recai primariamente sobre o regime de Maduro.

Conclusão: Lições de um Abandono Anunciado

O descarte de Bolsonaro por Trump oferece uma lição clara sobre a natureza das relações de poder contemporâneas: alianças baseadas exclusivamente em afinidades ideológicas ou pessoais são profundamente instáveis quando não sustentadas por interesses estratégicos concretos e capacidade de entrega política.

Para o Brasil, o episódio reforça a necessidade de uma política externa pragmática, diversificada e capaz de transcender governos e personalidades. A dependência de vínculos pessoais entre líderes se mostrou, mais uma vez, uma estratégia arriscada e potencialmente prejudicial aos interesses nacionais de longo prazo.

Fonte: BBC

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